ANIMA DECOLORUM EST

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

BABAGAMUSH e o TEATRO MINEIRO

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso, e ainda estou confuso, mas agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente...

Ou seja, amadureci. E passei a frequentar mais o teatro mineiro, e ver os amigos e colegas.

Resumo: somos bons pra caralho. Se as redes de TV tivessem sua sede em BH ao invés de Rio/SP, seríamos imbatíveis, e teríamos chegado a Hollywood beeeem antes de Alice, Rodrigo, Wagner, entre tantos.

Acho que o problema são as energias das paredes de metal que cercam a cidade. Quem consegue romper essas paredes (Yara, Débora, Débora, Henrique, Alexandre, Daniel, Gustavo, só para citar a leva mais recente) abre uma picada através da qual a qualidade do que se faz em teatro no restante do Brasil vai seguindo, mesmo que a contragosto bairrista. E muito mais gente que eu conheço merece derrubar essas paredes de metal.

Primeira parada: Galpão e os Gigantes da Montanha

Sabe aquele monstro cansado, que faz uma pausa pra descansar? O recente espetáculo da companhia-xodó dos mineiros me deu essa impressão. Depois de duas espetaculares maravilhas baseadas no grande russo Tchekov, parece que o grupo tentou realizar uma terceira, requentando uma fórmula de estrondoso sucesso mas que completou 20 anos em 2012, e se deu mal. A bem da verdade, assisti à peça num dia espantosamente frio, e desde o início me baixou o mau-humor. Fiquei pior ainda quando fui acintosamente acusado por não ter gostado do espetáculo. Peraí, vem cá: eu tenho que gostar de tudo que o Galpão faz, só porque é Galpão? Não, não tenho não. Achei o espetáculo longo, poético no limite do suportável num texto que exigia muito esforço (o que não deu pra ver), cheio das quinquilharias Villelianas que faziam com que a excelente expressão corporal da trupe se tornasse mínima. Não destaco nem ataco ninguém individualmente porque sou amigo dos meninos, amo-os de paixão e acho que eles mereciam ter tido idéias melhores com a volta à parceria com o bardo Gabriel.

Segunda parada: Cia Arlecchino e Toda Nudez Será Castigada

Eu não tinha gostado do espetáculo anterior da companhia capitaneada por Kalluh Araújo, A Mulher Sem Pecado. Entretanto, após ver Toda Nudez, compreendi a peça anterior: Kalluh resumiu os últimos 30 anos da carreira, fechou um ciclo e partiu para a aventura. A esta fase eu chamaria de A Morte e o Louco (para quem não entende de tarô não ficar boiando, as duas cartas juntas significam exatamente isso: fim-de-ciclo e início de um novo e desconhecido). E fiquei tão impressionado, tão maravilhado, que só posso desejar à Companhia e ao Kalluh outra carta de tarô: a dos Enamorados, a felicidade completa e augúrios de novas e excitantes aventuras. Amauri Reis está deslumbrante, Cleo Carmona irrepreensível. O universo rodrigueano recebeu um frescor de pasta de dente nova com essa mão diferente, cem-por-cento melhor que as anteriores, do Kalluh. Achei tão bom, tão bom, que mesmo algumas escorregadelas (ah, qual espetáculo não as tem?) como certos textos gritados me soaram mínimas.

Terceira parada: Cia da Farsa e Adultérios

Assisti duas vezes e achei do caralho. É ruim fazer comédia, minha senhora, principalmente porque parece tão fácil escolher qualquer texto que tenha uma bichinha, uma empregada com algum sotaque, fazer aquele monte de caretas e ter certeza de que será um estrondoso sucesso. Nem precisa de bons atores. Agora, ter à disposição um texto picante no ponto, escrito especialmente para a produção, juntar um grupo de atores talentosos, não exatamente comediantes mas profissionais experimentados que conhecem as nuances do drama e da comédia, um chapeleiro louco que inventa nada menos que 'centas trocas de roupa, é bem mais difícil, senhora. É preciso um tantinho de loucura pra ir na contracorrente das comédias em cartaz, mesmo que o tema (sexo!!!) seja (e é e será) o que mais atrai público. Defeitos? Tem sim: uma quedinha de ritmo aqui, uma luz deslocada ali... mas não tenho pecha de dizer que temos no palco uma das melhores comédias dos últimos tempos.

Quarta parada: Cia Capote e Um Breve Lapso da Razão

Tudo corria bem. Cenário funcional e bonito, luz que prometia, figurino despojado, e a certeza de ter dois grandes atores em cena. O texto começa, prometia mundos e fundos também, estava tudo pronto pra ser um excelente espetáculo. E aí... o personagem da mãe começa a falar, e tudo vai água abaixo. As falas da mãe tornaram aos meus olhos monocórdio e triste o que poderia ter sido pleno de silêncios mágicos e ritmo lento mas profundamente poético. Fiquei imaginando o quanto o trabalho do Rômulo cresceria se ele tentasse dizer com o olhar e o corpo tudo o que a mãe diz. Acho que ficaria báárbaro! Uma ou outra frase, pra quebrar até mesmo o excesso de mutismo, cairiam como luva, tipo "Quer chá?". Acho que o espetáculo cresceria muito, também. E a Companhia do Capote, a meu ver, é uma aventura que promete muitos bons frutos.

Resumo

Para um bom espetáculo em BH não é imprescindível patrocínios exuberantes nem nomes estrelados no elenco/produção. Notaram o que eu disse? Não é imprescindível,pois muita gente consegue fazer coisa do caralho no esquema cooperativista ou com pouco patrocínio/incentivo. Eu sou testemunha.



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