Cinemão de shopping. A batalha se avizinhava. Decidi lutar não lutando, e me dei bem.
Me precavi com armas e estratégias que o inimigo nem suspeitava: estar ao lado dele, com as mesmas armas.
Ou seja, comprei um balde gigante de pipoca e um de refrigerante, mas me sentei na quarta fileira, da tela para o fundo, bem longe da alta concentração das Pipocas Infinitas, pois me misturar a elas já seria ir bem longe na minha "missão suicida".
O preclaro leitor nem imagina o que são as Pipocas Infinitas num shopping popular. São sacos de quilo de batata frita, bandejas quilométricas de esfirras, baldes de bolinhas de chocolate, regados a litros de refrigerante, embalados em sacolas que parecem de celofane, com um acabamento insuspeitado por mim até agora: gritinhos de criança!!
Tudo isso, entretanto, estava distante, na famosa "turma do fundo": as araras, adolescentes ou não, e as famosas Pipocas Infinitas.
Enfim, começa o filme. Hora de colocar os óculos de terceira dimensão, aqueles que forçam seus olhos a fazer o mesmo que eles fazem naturalmente quando você aproxima deles aquelas estampas a princípo estranhas mas que revelam figuras que quase podemos tocar.
Não sei se gostei da experiência. Dá pra ver que todo filme vai ser assim no futuro, mas não sei se isso é assim tão necessário. Parece o mesmo fenômeno do e-book: alta tecnologia, virar-de-página virtual, tudo para se aproximar de um livro de verdade, uma capacidade de armazenamento quase infinita, mas que está longe de parecer um substituto ao ato de pegar um livro e ler. Parece que falta calor, um calor que o cinema 2D já tem e que, pelo menos não tão cedo, não será substituído.
E o filme era Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. O blockbuster de ocasião, produzido pela mega Disney. Super efeitos, super visual (figurinos da irrepreensível Coleen Atwood), roteiro que parece obedecer a cartilha (garantida contra falhas) de Christopher Vogler. Referências explícitas aos dois livros de Lewis Carroll e ao filme de animação, muito (muito mesmo!) de O Senhor dos Anéis (Tolkien) mas idéias novas para dar "frescor" ao que imagino ser imortal e que, mesmo se tivesse sido filmado tal e qual está nos livros, jamais seria perdido.
Os personagens animados (os coelhos, a rata, os cães, o gato, a lagarta, o dragão, o cão-monstro, entre outros) tiveram maior chance de expressão que os atores de carne e osso. Por incrívelque pareça, o trabalho interpretativo que já conhecemos de Johnny Depp e Helena Bonham-Carter, parceiros de Burton já há algum tempo, foi afogado no excesso de efeitos e visuais. Anne Hathaway tudo bem, ela é inexpressiva mesmo. Mia Wichows... Wiborow... Stolichn... Wathever!!, também. Mas, pra quê interpretação, pensando bem? Alice é entretenimento puro, sem grande consistência, uma grande viagem visual, e para um mercado como o americano, isso basta.
Demorei uma hora e meia para terminar o meu balde de pipoca. Agora sei porquê elas são infinitas.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
terça-feira, 11 de maio de 2010
BABAGAMUSH E O FANTASMA DE POLANSKI
Roman Polanski terminou as filmagens do roteiro baseado no livro de Robert Harris e foi preso. Daí, saboreando toda essa história, dei de cara com o tal livro na Biblioteca Pública.
Acabei de lê-lo. Fiz isso durante os últimos seis dias, vendo Pierce Brosnan como o ex-Primeiro Ministro Britânico e Ewan McGregor como o escritor. Acabo de ver o trailer no YouTube. Tudo assim, num estalar de dedos, como muitos órgãos de imprensa nos fazem acreditar que seja o ideal de uma sociedade pós moderna.
Eu fico muito admirado de ler um romance escrito assim, com bem pouca linguiça cheia. Aquelas descrições extremamente detalhadas do ambiente em que o personagem está, que matam a gente de tédio e que servem apenas para deixar o livro mais grosso, foram enxugadas ao máximo, para cumprir apenas a sua função primordial, que é criar o clima da cena. O livro de Harris é soturno e sempre em suspenso, como o clima que permeia a maioria das cenas. Livro típico escrito para virar mais um filme de suspense comum nas mãos de qualquer um em Hollywood. Entretanto, a surpresa de cara é com Polanski. O diretor polonês enxergou algo de autobiográfico no livro, o fato de um dos personagens temer os acordos e desacordos de extradição de criminosos entre os países, e viu sua chance de expurgar o imbróglio em que se meteu com uma menor de idade nos anos 70. Seu companheiro de orgia, Jack Nicholson, se safou, talvez por ser americano e apenas um ator. Ele, judeu polonês, diretor de O Bebê de Rosemary, A Dança dos Vampiros, O Inquilino, Repulsa ao Sexo e outras esquisitices, não pôde mais pisar em solo americano. Enfim, Polanski viu no livro a possibilidade de ser melhor que Hollywood. Pelo trailer, acho que conseguiu, o que não é muito difícil.
Escritor-fantasma (ghost-writer, em BOM português) profissional é contratado para fazer a "autobiografia" de um ex-primeiro ministro britânico. Até aí, nada de mais, mas estoura um escândalo relacionado a direitos civis ignorados pelo então chefe de Estado inglês, e o que era uma simples rotina de entrevistas e escrevências se torna jornalismo investigativo. Bem ao clima de outro Polanski, Busca Frenética, estrelado por Harrison Ford. Sabe livro escrito com tinta à base de baba de quiabo, para ser deglutido rápido? Assim, sua ânsia de chegar à solução do enigma passa por cima de quaisquer falhas que porventura haja no caminho, seja de autoria, seja de tradução.
O filme, espero, deve ter algo de inesquecível. Afinal, é um Polanski, e está cercado de suspense com essa prisão arbitrária do polonês em solo suíço que, de repente, fez um acordo de extradição de criminosos (?) com os Estados Unidos, abrindo um precedente perigosíssimo para o até hoje símbolo internacional da neutralidade política. Isso mesmo, acho que a prisão do Polanski, depois de levar às telas um livro como esse, tem um caráter mais político que qualquer outro. Claro, a comunidade internacional está pressionando a Suíça para tirar o véu de confidenciabilidade de seus clientes bancários, e Polanski acabou virando boi de piranha nessa história.
Mexer em ferida dá nisso.
Acabei de lê-lo. Fiz isso durante os últimos seis dias, vendo Pierce Brosnan como o ex-Primeiro Ministro Britânico e Ewan McGregor como o escritor. Acabo de ver o trailer no YouTube. Tudo assim, num estalar de dedos, como muitos órgãos de imprensa nos fazem acreditar que seja o ideal de uma sociedade pós moderna.
Eu fico muito admirado de ler um romance escrito assim, com bem pouca linguiça cheia. Aquelas descrições extremamente detalhadas do ambiente em que o personagem está, que matam a gente de tédio e que servem apenas para deixar o livro mais grosso, foram enxugadas ao máximo, para cumprir apenas a sua função primordial, que é criar o clima da cena. O livro de Harris é soturno e sempre em suspenso, como o clima que permeia a maioria das cenas. Livro típico escrito para virar mais um filme de suspense comum nas mãos de qualquer um em Hollywood. Entretanto, a surpresa de cara é com Polanski. O diretor polonês enxergou algo de autobiográfico no livro, o fato de um dos personagens temer os acordos e desacordos de extradição de criminosos entre os países, e viu sua chance de expurgar o imbróglio em que se meteu com uma menor de idade nos anos 70. Seu companheiro de orgia, Jack Nicholson, se safou, talvez por ser americano e apenas um ator. Ele, judeu polonês, diretor de O Bebê de Rosemary, A Dança dos Vampiros, O Inquilino, Repulsa ao Sexo e outras esquisitices, não pôde mais pisar em solo americano. Enfim, Polanski viu no livro a possibilidade de ser melhor que Hollywood. Pelo trailer, acho que conseguiu, o que não é muito difícil.
Escritor-fantasma (ghost-writer, em BOM português) profissional é contratado para fazer a "autobiografia" de um ex-primeiro ministro britânico. Até aí, nada de mais, mas estoura um escândalo relacionado a direitos civis ignorados pelo então chefe de Estado inglês, e o que era uma simples rotina de entrevistas e escrevências se torna jornalismo investigativo. Bem ao clima de outro Polanski, Busca Frenética, estrelado por Harrison Ford. Sabe livro escrito com tinta à base de baba de quiabo, para ser deglutido rápido? Assim, sua ânsia de chegar à solução do enigma passa por cima de quaisquer falhas que porventura haja no caminho, seja de autoria, seja de tradução.
O filme, espero, deve ter algo de inesquecível. Afinal, é um Polanski, e está cercado de suspense com essa prisão arbitrária do polonês em solo suíço que, de repente, fez um acordo de extradição de criminosos (?) com os Estados Unidos, abrindo um precedente perigosíssimo para o até hoje símbolo internacional da neutralidade política. Isso mesmo, acho que a prisão do Polanski, depois de levar às telas um livro como esse, tem um caráter mais político que qualquer outro. Claro, a comunidade internacional está pressionando a Suíça para tirar o véu de confidenciabilidade de seus clientes bancários, e Polanski acabou virando boi de piranha nessa história.
Mexer em ferida dá nisso.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010
BABAGAMUSH E A CRÍTICA INÚTIL
Inútil porque o filme já é consagrado, e está quase saindo de cartaz. Mas, mesmo assim, vale o registro de um filme bem tocante.
Hanami é o nome que se dá ao festival das cerejeiras no Japão. A cerejeira dá flor durante uma semana por ano, e é um dos símbolos da transitoriedade de tudo, um dos preceitos básicos do Budismo: a Impermanência. Por isso, os parques de cerejeiras no Japão se transformam em verdadeiras celebrações coletivas durante a floração das árvores.
Trudi, uma senhora alemã mãe de três filhos já adultos, sonha em ver de perto essa e outras maravilhas japonesas, como o Butoh (dança moderna) e o símbolo máximo do país, o monte Fuji.
Só que ela, devotada ao marido, não chega a realizar esse desejo, pois morre antes. O marido, Rudi, é quem realiza esse desejo e, lá no Japão, começa a compreender, pela primeira vez na vida, quem foi sua mulher.
O filme critica abertamente a sociedade alemã, cujos jovens passam um rolo compressor na geração anterior: nunca há tempo, nem paciência, nem assunto, para a convivência. Faço, é claro, um paralelo com o belíssimo A Balada de Narayama, que também versa sobre a transitoriedade da vida e a budística aceitação deste inelutável regra da natureza. Acho, até, que o filme de Nagisa Oshima está nas entrelinhas do de Doris Dörrie, nas quase cerimoniosas referências ao país oriental.
E esta é a resenha inútil de um filme, pois a geração mais nova, que deveria assistir esse filme, está toda no shopping assistindo Alice. A geração mais velha, que deveria estar se divertindo com o filme de Tim Burton está lá, reaprendendo com os alemães e japoneses coisas que já sabiam há muito tempo. Valores inversos. Sei não. Tenho medo de ficar assim.
Hanami é o nome que se dá ao festival das cerejeiras no Japão. A cerejeira dá flor durante uma semana por ano, e é um dos símbolos da transitoriedade de tudo, um dos preceitos básicos do Budismo: a Impermanência. Por isso, os parques de cerejeiras no Japão se transformam em verdadeiras celebrações coletivas durante a floração das árvores.
Trudi, uma senhora alemã mãe de três filhos já adultos, sonha em ver de perto essa e outras maravilhas japonesas, como o Butoh (dança moderna) e o símbolo máximo do país, o monte Fuji.
Só que ela, devotada ao marido, não chega a realizar esse desejo, pois morre antes. O marido, Rudi, é quem realiza esse desejo e, lá no Japão, começa a compreender, pela primeira vez na vida, quem foi sua mulher.
O filme critica abertamente a sociedade alemã, cujos jovens passam um rolo compressor na geração anterior: nunca há tempo, nem paciência, nem assunto, para a convivência. Faço, é claro, um paralelo com o belíssimo A Balada de Narayama, que também versa sobre a transitoriedade da vida e a budística aceitação deste inelutável regra da natureza. Acho, até, que o filme de Nagisa Oshima está nas entrelinhas do de Doris Dörrie, nas quase cerimoniosas referências ao país oriental.
E esta é a resenha inútil de um filme, pois a geração mais nova, que deveria assistir esse filme, está toda no shopping assistindo Alice. A geração mais velha, que deveria estar se divertindo com o filme de Tim Burton está lá, reaprendendo com os alemães e japoneses coisas que já sabiam há muito tempo. Valores inversos. Sei não. Tenho medo de ficar assim.
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terça-feira, 4 de maio de 2010
BABAGAMUSH E A POLÊMICA JUDAICA
Talvez este escriba já tenha lido e assistido muita história do amor que não ousava dizer o nome e, como minha memória é imodestamente excelente, guardo todas e, claro, posso citar um monte de grandes histórias contadas em grandes filmes, livros e peças de teatro. Tragédias, dramas e comédias. Tenho a desagradável sensação de que o tema se esgotou, e de que o que se vê nos cinemas é apenas mais do mesmo, alguns filmes contando novas histórias com sucesso e beleza, outros não.
Hetero em casamento tradicionalista e conservador encontra jovem cheio de vida e o contrata como ajudante, e logo passa do balcão da loja para a cama do rapaz. A sociedade pressiona, mesmo sem saber o real motivo de tal ligação, e o moço vai embora, deixando o mais velho desconsolado. O enredo é o mesmo de Outra História de Amor, filme argentino de 1986, com pequenas diferenças.
O que resta de Pecado da Carne, filme israelense de 2009, para que seja um filme belo? Resta o ineditismo da quebra de um tabu religioso pesadíssimo, a existência de gays no seio da comunidade judaica ortodoxa; a força e a coragem dos atores em cena, com sua expressividade extrema nos momentos de maior silêncio; a fotografia e a música; e o interessantíssimo apoio do Conselho Israelense de Cinema, o que vem provar que as instituições daquele país não são tão ortodoxas como eu imaginava...
Hetero em casamento tradicionalista e conservador encontra jovem cheio de vida e o contrata como ajudante, e logo passa do balcão da loja para a cama do rapaz. A sociedade pressiona, mesmo sem saber o real motivo de tal ligação, e o moço vai embora, deixando o mais velho desconsolado. O enredo é o mesmo de Outra História de Amor, filme argentino de 1986, com pequenas diferenças.
O que resta de Pecado da Carne, filme israelense de 2009, para que seja um filme belo? Resta o ineditismo da quebra de um tabu religioso pesadíssimo, a existência de gays no seio da comunidade judaica ortodoxa; a força e a coragem dos atores em cena, com sua expressividade extrema nos momentos de maior silêncio; a fotografia e a música; e o interessantíssimo apoio do Conselho Israelense de Cinema, o que vem provar que as instituições daquele país não são tão ortodoxas como eu imaginava...
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sábado, 17 de abril de 2010
BABAGAMUSH E O TRUQUE DE TOM FORD
Tom Ford foi o designer que levantou o nome Gucci no mercado internacional de moda. Sinônimo de simplicidade e sofisticação, Ford imperou por anos na casa italiana. Aí, de repente, a Gucci foi vendida para um conglomerado internacional, e Ford, aparentemente, desistiu do mundo da moda e sumiu.
Sumiu para ressurgir, dois anos depois, cineasta e já apresentando prêmio no Oscar, com seu ator principal, Colin Firth, candidato a melhor ator.
Comecemos pelo título. Direito de Amar não é uma boa tradução para o original, A Single Man. Primeiro porque não tem nada a ver. O personagem de Colin não está lutando por um direito de amar. Esta é uma mensagem que não está nem nas entrelinhas do filme. Me parece mais panfletarismo gay, e dos mais inúteis, pois é um clichezaço. Segundo: a palavra single, em inglês, significa três coisas: solteiro, simples (no sentido de solitário) e singular (no sentido de único).
O filme é um filme de designer. Seco, austero e visualmente muito, muito sofisticado.
A história é baseada num livro de Christopher Isherwood, mais conhecido porque escreveu Adeus a Berlim, que inspirou o filme Cabaret (Money makes the world go round, lembra?) do que por ter encabeçado um importante movimento gay nos EUA na década de 60. Não li o livro, mas me pareceu que a escolha de situar a história nos anos 60 foi do diretor, justamente porque foi uma década em que o design americano era seco, austero e muito, muito sofisticado. Enfim, é a trajetória de um dia na vida de um homem que está lutando para superar a perda do companheiro, um casamento de 16 anos que termina de maneira trágica, e manter as americanas aparências de um professor universitário. É um filme bobo na essência (já vi filmes de temática gay bem mais interessantes, como Bubble), pois é tão óbvio que quase vira um clichê, mas esteticamente é uma das coisas mais belas que já vi. Os signos pulam da tela e conversam com você, e quando isso acontece para mim é um êxtase de fruição. A interpretação de Colin Firth é irretocável, e é o segundo trunfo de Ford. Mas é só. Filme-melão, não fosse o brilho e a força das imagens do primeiro filme do ex-enfant terrible da Gucci.
Sumiu para ressurgir, dois anos depois, cineasta e já apresentando prêmio no Oscar, com seu ator principal, Colin Firth, candidato a melhor ator.
Comecemos pelo título. Direito de Amar não é uma boa tradução para o original, A Single Man. Primeiro porque não tem nada a ver. O personagem de Colin não está lutando por um direito de amar. Esta é uma mensagem que não está nem nas entrelinhas do filme. Me parece mais panfletarismo gay, e dos mais inúteis, pois é um clichezaço. Segundo: a palavra single, em inglês, significa três coisas: solteiro, simples (no sentido de solitário) e singular (no sentido de único).
O filme é um filme de designer. Seco, austero e visualmente muito, muito sofisticado.
A história é baseada num livro de Christopher Isherwood, mais conhecido porque escreveu Adeus a Berlim, que inspirou o filme Cabaret (Money makes the world go round, lembra?) do que por ter encabeçado um importante movimento gay nos EUA na década de 60. Não li o livro, mas me pareceu que a escolha de situar a história nos anos 60 foi do diretor, justamente porque foi uma década em que o design americano era seco, austero e muito, muito sofisticado. Enfim, é a trajetória de um dia na vida de um homem que está lutando para superar a perda do companheiro, um casamento de 16 anos que termina de maneira trágica, e manter as americanas aparências de um professor universitário. É um filme bobo na essência (já vi filmes de temática gay bem mais interessantes, como Bubble), pois é tão óbvio que quase vira um clichê, mas esteticamente é uma das coisas mais belas que já vi. Os signos pulam da tela e conversam com você, e quando isso acontece para mim é um êxtase de fruição. A interpretação de Colin Firth é irretocável, e é o segundo trunfo de Ford. Mas é só. Filme-melão, não fosse o brilho e a força das imagens do primeiro filme do ex-enfant terrible da Gucci.
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sábado, 10 de abril de 2010
BABAGAMUSH E O SEGREDO DOS OLHOS TEUS
Fico pensando naquela música da Maria Bethânia, com participação da sempre elegante - até na voz - Jeanne Moreau, Poema dos Olhos da Amada: "Quantos navios, quantos saveiros, quantos naufrágios, nos olhos teus..."
Mais que da alma, os olhos são o espelho das grandes interpretações desse filme argentino, ganhador do Oscar deste ano. É incrível ver um filme que desabrocha diante dos olhos, e cujo ápice - o final - é tão desconcertante.
A história é de uma simplicidade exemplar: jurista aposentado resolve ser escritor, e nessa tentativa, resolve 25 anos depois repisar um caso do qual participou e que o havia marcado. Os fatos e personagens dessa história em particular vão se desabrochando, cada pétala um cheiro diferente, até que, quando chega o final, a gente não sabe se sente repulsa ou satisfação pelo que acaba de acontecer. É um filme extremamente bem realizado, muito sensível, e se você leitor, desde o início, prestar atenção nos olhares dos atores - talentosíssimos, apesar do quase ininteligível espanhol argentino - vai compreender muito mais signos do que eu.
Outra comparação inevitável: porque a Argentina já está com dois Oscar de Filme Estrangeiro, e o Brasil só conseguiu morrer na praia por quatro vezes? A resposta é longa, mas vou abreviá-la apenas para provocar uma reflexão.
O Brasil copia o modelo americano, ou seja, não sabe fazer cinema. O Brasil ganha dos portenhos com seu Teatro, mas este não é artigo de exportação. O cinema brasileiro (assim como o americano), é passional demais, sem equilíbrio entre drama e comédia: não existe respiro, se é comédia não pode ter drama, se é drama não pode ter alívio cômico. O cinema argentino sabe dosar as duas coisas, o que deixa suas obras com uma densidade que o mundo está acostumado e apto a assistir. O Brasil faz cinema de entretenimento. A Argentina conta boas histórias.
O resto, o segredo, está dentro dos seus próprios olhos, leitor.
Mais que da alma, os olhos são o espelho das grandes interpretações desse filme argentino, ganhador do Oscar deste ano. É incrível ver um filme que desabrocha diante dos olhos, e cujo ápice - o final - é tão desconcertante.
A história é de uma simplicidade exemplar: jurista aposentado resolve ser escritor, e nessa tentativa, resolve 25 anos depois repisar um caso do qual participou e que o havia marcado. Os fatos e personagens dessa história em particular vão se desabrochando, cada pétala um cheiro diferente, até que, quando chega o final, a gente não sabe se sente repulsa ou satisfação pelo que acaba de acontecer. É um filme extremamente bem realizado, muito sensível, e se você leitor, desde o início, prestar atenção nos olhares dos atores - talentosíssimos, apesar do quase ininteligível espanhol argentino - vai compreender muito mais signos do que eu.
Outra comparação inevitável: porque a Argentina já está com dois Oscar de Filme Estrangeiro, e o Brasil só conseguiu morrer na praia por quatro vezes? A resposta é longa, mas vou abreviá-la apenas para provocar uma reflexão.
O Brasil copia o modelo americano, ou seja, não sabe fazer cinema. O Brasil ganha dos portenhos com seu Teatro, mas este não é artigo de exportação. O cinema brasileiro (assim como o americano), é passional demais, sem equilíbrio entre drama e comédia: não existe respiro, se é comédia não pode ter drama, se é drama não pode ter alívio cômico. O cinema argentino sabe dosar as duas coisas, o que deixa suas obras com uma densidade que o mundo está acostumado e apto a assistir. O Brasil faz cinema de entretenimento. A Argentina conta boas histórias.
O resto, o segredo, está dentro dos seus próprios olhos, leitor.
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quarta-feira, 3 de março de 2010
BABAGAMUSH SIMPLESMENTE COMPLICADO
É isso aí, fui ver cinemão em shopping. É um risco, o shopping é um lugar cuja fauna humana é imprevisível: você tanto pode sentar ao lado de um catedrático da UFMG quanto atrás de um bando de araras adolescentes. É uma aventura. A qualidade da sessão vai depender da sorte.
Tive sorte. Até mesmo minhas mortais inimigas, as vilãs Pipocas Infinitas, mesmo audíveis, estavam longe.
E o cinemão era Simplesmente Complicado. Só fui porque era com Meryl Streep. Podia perfeitamente ter esperado para ver na TV a cabo, daqui a alguns meses.
Sabe filme melão, aquele que a gente arrota e esquece? Pois é. Era só colocar atores brasileiros, e aquilo seria mais um capítulo da nova novela. Tudo idílico, tudo ideal, todo mundo rico, talentoso, casas enormes, carros potentes, faculdade cara. O roteiro tem piadas boas, humor adulto, sofisticado, bem bacana, mas nada daquela singeleza que há por trás do filme anterior da diretora/roteirista Nancy Meyers, O Amor não Tira Férias. É bem verdade que Mrs. Streep vale o ingresso. Qualquer porcaria que ela faça vale o ingresso. Ela é melhor que Mrs. Hepburn, que me desculpem os puristas hollywoodianos. Outro que vale o ingresso é o ainda cheio de charme Alec Baldwin, mesmo fora de forma e com uma mancha negra na família, o homofóbico Stephen.
Ignore o Steve Martin, está completamente deslocado de seu meio, que é o holofote central.
Ah, sim, vale também a trilha sonora, com a co-autoria do brasileiro Heitor Pereira, ex-Simply Red.
Eh... de que filme mesmo eu estava falando?
Tive sorte. Até mesmo minhas mortais inimigas, as vilãs Pipocas Infinitas, mesmo audíveis, estavam longe.
E o cinemão era Simplesmente Complicado. Só fui porque era com Meryl Streep. Podia perfeitamente ter esperado para ver na TV a cabo, daqui a alguns meses.
Sabe filme melão, aquele que a gente arrota e esquece? Pois é. Era só colocar atores brasileiros, e aquilo seria mais um capítulo da nova novela. Tudo idílico, tudo ideal, todo mundo rico, talentoso, casas enormes, carros potentes, faculdade cara. O roteiro tem piadas boas, humor adulto, sofisticado, bem bacana, mas nada daquela singeleza que há por trás do filme anterior da diretora/roteirista Nancy Meyers, O Amor não Tira Férias. É bem verdade que Mrs. Streep vale o ingresso. Qualquer porcaria que ela faça vale o ingresso. Ela é melhor que Mrs. Hepburn, que me desculpem os puristas hollywoodianos. Outro que vale o ingresso é o ainda cheio de charme Alec Baldwin, mesmo fora de forma e com uma mancha negra na família, o homofóbico Stephen.
Ignore o Steve Martin, está completamente deslocado de seu meio, que é o holofote central.
Ah, sim, vale também a trilha sonora, com a co-autoria do brasileiro Heitor Pereira, ex-Simply Red.
Eh... de que filme mesmo eu estava falando?
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
BABAGAMUSH E A PEDRADA PRECIOSA
Não tem jeito. Cinema no domingo à tarde é mesmo um porre, quer dizer, um saco, quer dizer, vários sacos de pipocas infinitas. Não consigo entender essa relação cinema-pipoca. Já a relação TV-pipoca é mais que compreensível. É uma delícia. Então, será possível que as pessoas querem mesmo imaginar que estão em seus sofás, diante de um telão, confortáveis, e se esquecem de que estão em público, e que devem um mínimo de respeito a quem está ao lado?
Faço aqui neste blog uma guerra às Pipocas Infinitas, minhas mortais inimigas. Não, minha querida, você não tem o direito de obrigar o espectador ao lado a escutar aquele barulho irritante do saco de pipoca que parece não ter fundo. O espectador tem direito ao silêncio e à concentração no filme. Mas como isso parece uma tradição idiotamente arraigada na sociedade de consumo de cultura, prefiro procurar horários e filmes ignorados pelos cabeças-ocas que veem uma relação intrínseca entre mastigar como bovino e assistir uma película.
O registro de minhas batalhas contra as Pipocas Infinitas tem alguns momentos hilários, como o que aconteceu quando fui ver Preciosa, de Lee Daniels.
Casa cheia, alguns adolescentes, centenas de sacos imensos das Pipocas, todos fazendo barulho ao mesmo tempo. Comentei o fato para o amigo que me acompanhava, digamos, um pouco alto demais, e as pessoas ao redor se silenciaram para prestar atenção e conferir o que eu dizia. De repente, um clima risível se estabeleceu no espaço, pois todos pararam de conversar para ouvir o barulho das Pipocas Infinitas. Eram tantas que parecia o ruído assustador de uma floresta em chamas. Enfim, começa o filme, e quem insistia em devorar as Pipocas ficou com elas engasgadas na garganta.
É uma pedrada, do começo ao fim. É o fim do Sonho Americano. É a desesperança a 24 quadros por segundo. É a volta dolorosa aos valores mais simples. É uma viagem impressionante.
Preciosa é a história real de Sapphire. Gorda, feia, analfabeta, violentamente hostilizada pela mãe eternamente sentada frente à TV, mãe de uma filha com Síndrome de Down e grávida do segundo filho, ambos gerados pelo próprio pai. A produção é de Oprah Winfrey, e conta com participações de amigos da produtora, Mariah Carey e Lenny Kravitz. Nos papéis principais, a estreante Gabourey Sidibe e a fofa Mo'Nique (Garotas Formosas). Gabourey não precisou interpretar muito para impressionar: obesa quase morbidamente, suas expressões já são patéticas só por causa do excesso de gordura. Mo'Nique é quem impressiona mais: a reação às suas caretas tipicas do gueto novaiorquino vão do asco à profunda revolta. Descontado o exagero romântico desse tipo de filme, como pode existir um ser tão abjeto? Mo'Nique já ganhou uma pá de prêmio nos EUA, Gabourey também, e acho que elas levam a estatueta dourada agora, dia 07 de março. E como se não bastasse, o sorriso de Gabourey na cena final do filme já vale o esforço de aguentar tanta pedrada no estômago por hora e meia.
Ao final, silêncio total. As Pipocas Infinitas haviam morrido na metade do filme. Os cabeças-ocas de plantão ficaram com medo de engasgar. Vitória minha. He he.
Faço aqui neste blog uma guerra às Pipocas Infinitas, minhas mortais inimigas. Não, minha querida, você não tem o direito de obrigar o espectador ao lado a escutar aquele barulho irritante do saco de pipoca que parece não ter fundo. O espectador tem direito ao silêncio e à concentração no filme. Mas como isso parece uma tradição idiotamente arraigada na sociedade de consumo de cultura, prefiro procurar horários e filmes ignorados pelos cabeças-ocas que veem uma relação intrínseca entre mastigar como bovino e assistir uma película.
O registro de minhas batalhas contra as Pipocas Infinitas tem alguns momentos hilários, como o que aconteceu quando fui ver Preciosa, de Lee Daniels.
Casa cheia, alguns adolescentes, centenas de sacos imensos das Pipocas, todos fazendo barulho ao mesmo tempo. Comentei o fato para o amigo que me acompanhava, digamos, um pouco alto demais, e as pessoas ao redor se silenciaram para prestar atenção e conferir o que eu dizia. De repente, um clima risível se estabeleceu no espaço, pois todos pararam de conversar para ouvir o barulho das Pipocas Infinitas. Eram tantas que parecia o ruído assustador de uma floresta em chamas. Enfim, começa o filme, e quem insistia em devorar as Pipocas ficou com elas engasgadas na garganta.
É uma pedrada, do começo ao fim. É o fim do Sonho Americano. É a desesperança a 24 quadros por segundo. É a volta dolorosa aos valores mais simples. É uma viagem impressionante.
Preciosa é a história real de Sapphire. Gorda, feia, analfabeta, violentamente hostilizada pela mãe eternamente sentada frente à TV, mãe de uma filha com Síndrome de Down e grávida do segundo filho, ambos gerados pelo próprio pai. A produção é de Oprah Winfrey, e conta com participações de amigos da produtora, Mariah Carey e Lenny Kravitz. Nos papéis principais, a estreante Gabourey Sidibe e a fofa Mo'Nique (Garotas Formosas). Gabourey não precisou interpretar muito para impressionar: obesa quase morbidamente, suas expressões já são patéticas só por causa do excesso de gordura. Mo'Nique é quem impressiona mais: a reação às suas caretas tipicas do gueto novaiorquino vão do asco à profunda revolta. Descontado o exagero romântico desse tipo de filme, como pode existir um ser tão abjeto? Mo'Nique já ganhou uma pá de prêmio nos EUA, Gabourey também, e acho que elas levam a estatueta dourada agora, dia 07 de março. E como se não bastasse, o sorriso de Gabourey na cena final do filme já vale o esforço de aguentar tanta pedrada no estômago por hora e meia.
Ao final, silêncio total. As Pipocas Infinitas haviam morrido na metade do filme. Os cabeças-ocas de plantão ficaram com medo de engasgar. Vitória minha. He he.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Perdi 12 anos de memória
Estou muito triste, hoje. Já tinha perdido nove anos de memória, acabo de saber que estou perdendo mais três.
Acho que escola é, queiramos ou não, o lugar onde somos mais felizes. O aprendizado, a convivência, o fazer coisas diariamente, são dádivas, e a dádiva é, para mim, matéria prima da felicidade, aquela felicidade que se colhe todos os dias, pedacinhos, e monta com eles um grande mosaico de felicidades de todas as cores, ao qual chamamos memória ou, como querem alguns menos românticos, conhecimento.
Pois perdi doze anos de memória. Três edifícios, três lugares onde fui feliz, foram demolidos. Estou me sentindo órfão.
O colégio Anchieta, onde passei da adolescência para a juventude, situado num edifício da década de 30, no Centro de BH, hoje é um imenso estacionamento. A autorização deve ter vindo, claro, dos herdeiros do exemplar educador que criou o colégio, donos do terreno. Grande exemplo de preservação de memória, hein?
Uma parte enorme do prédio que abrigou o Teatro Universitário por dezoito anos está atualmente sendo demolido. O Coleginho, claro, deve ser preservado, pois deve ser tombado. O resto está vindo ao chão. As duas salas onde tive aula, montei espetáculo, ensaiei trabalhos, fiz festa por três anos, estão virando pó, e provavelmente virarão um edifício (a área é valorizadíssima, a dois quarteirões da Avenida do Contorno) ou, ironia, outro estacionamento.
O prédio da faculdade que fiz na década de 90 agora é parte de um buraco ainda maior, e é apenas dez por cento do imenso estacionamento do monstro arquitetônico que é o Expominas, no bairro Gameleira. Não sobrou nada, nem árvore sequer.
Os três prédios, e o montante de felicidade que experimentei ali, agora são só memória. Tenho a impressão de que tem alguém atrás de mim apagando as minhas impressões... Espero que EU esteja deixando impressões nas pessoas.
Acho que escola é, queiramos ou não, o lugar onde somos mais felizes. O aprendizado, a convivência, o fazer coisas diariamente, são dádivas, e a dádiva é, para mim, matéria prima da felicidade, aquela felicidade que se colhe todos os dias, pedacinhos, e monta com eles um grande mosaico de felicidades de todas as cores, ao qual chamamos memória ou, como querem alguns menos românticos, conhecimento.
Pois perdi doze anos de memória. Três edifícios, três lugares onde fui feliz, foram demolidos. Estou me sentindo órfão.
O colégio Anchieta, onde passei da adolescência para a juventude, situado num edifício da década de 30, no Centro de BH, hoje é um imenso estacionamento. A autorização deve ter vindo, claro, dos herdeiros do exemplar educador que criou o colégio, donos do terreno. Grande exemplo de preservação de memória, hein?
Uma parte enorme do prédio que abrigou o Teatro Universitário por dezoito anos está atualmente sendo demolido. O Coleginho, claro, deve ser preservado, pois deve ser tombado. O resto está vindo ao chão. As duas salas onde tive aula, montei espetáculo, ensaiei trabalhos, fiz festa por três anos, estão virando pó, e provavelmente virarão um edifício (a área é valorizadíssima, a dois quarteirões da Avenida do Contorno) ou, ironia, outro estacionamento.
O prédio da faculdade que fiz na década de 90 agora é parte de um buraco ainda maior, e é apenas dez por cento do imenso estacionamento do monstro arquitetônico que é o Expominas, no bairro Gameleira. Não sobrou nada, nem árvore sequer.
Os três prédios, e o montante de felicidade que experimentei ali, agora são só memória. Tenho a impressão de que tem alguém atrás de mim apagando as minhas impressões... Espero que EU esteja deixando impressões nas pessoas.
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Memória
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
BABAGAMUSH FOI À PIZZARIA!!
Nham-nham. Eu já sou fã de pizza há muito tempo. Recentemente, elegi a Prosciutto & Funghi da Parada do Cardoso e a de queijo Roquefort do Pizza Sur como as melhores do mundo, do meu mundo. Recomendo-as todas e, se o consulente estiver disposto, pode voltar outras vezes a estes dois estabelecimentos para provar as outras opções e, quem sabe, eleger as melhores do mundo, do seu mundo.
Nham-nham. Por intermédio de uma amiga de bom-gosto acabei por conhecer a Santa Pizza, num endereço escondidíssimo em Santa Tereza (em Belo Horizonte). Se devo dar estrelas para tudo o que vejo e faço, o Santa Pizza leva três (a cotação máxima de um guia Michelin, por exemplo): ambiente de muito bom gosto, atendimento de primeira e... simplesmente a melhor pizza do mundo. Do meu mundo.
A pizza da casa é a famosa à moda. Ok. O sabor é ótimo, massa al dente, assada ali, debaixo do seu nariz. A minha eleita, de cara e sem pestanejar, atende pelo nome de São Jorge (salve, meu santo guerreiro!!): leva funghi, manjericão, castanhas e uma nota picante. Literalmente dos céus.
A cerveja, meus caros apreciadores, é escrivida (ou seja, aquela temperatura em que se permite escrever a expressão quidiliça naquela região acima do rótulo).
Sei lá. Não sou Apicius, o lendário crítico de gastronomia do Jornal do Brasil. Não sei falar mal de comida. Se é ruim, prefiro não falar. Mas o Santa Pizza é, malgrado o pecado da gula, pra se comer de joelhos.
Nham-nham. Por intermédio de uma amiga de bom-gosto acabei por conhecer a Santa Pizza, num endereço escondidíssimo em Santa Tereza (em Belo Horizonte). Se devo dar estrelas para tudo o que vejo e faço, o Santa Pizza leva três (a cotação máxima de um guia Michelin, por exemplo): ambiente de muito bom gosto, atendimento de primeira e... simplesmente a melhor pizza do mundo. Do meu mundo.
A pizza da casa é a famosa à moda. Ok. O sabor é ótimo, massa al dente, assada ali, debaixo do seu nariz. A minha eleita, de cara e sem pestanejar, atende pelo nome de São Jorge (salve, meu santo guerreiro!!): leva funghi, manjericão, castanhas e uma nota picante. Literalmente dos céus.
A cerveja, meus caros apreciadores, é escrivida (ou seja, aquela temperatura em que se permite escrever a expressão quidiliça naquela região acima do rótulo).
Sei lá. Não sou Apicius, o lendário crítico de gastronomia do Jornal do Brasil. Não sei falar mal de comida. Se é ruim, prefiro não falar. Mas o Santa Pizza é, malgrado o pecado da gula, pra se comer de joelhos.
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Crítica
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
BABAGAMUSH VERSUS SHERLOCK HOLMES
Legal. O melhor horário para se evitar as Pipocas Infinitas é às duas da tarde de uma segunda-feira. Calor lá fora, ar condicionado e relativo silêncio. Enfim, começa a fita.
Confesso que desconfiei bastante quando soube que Sherlock Holmes estava sendo rodado sob direção de Guy Ritchie. Conhecido por seus filmes independentes, de baixo orçamento e histórias pra lá de bizarras, Ritchie é o que se pode chamar de enfant terrible. Lembra do clipe da Madonna em que ela coloca uma velhinha tomando coca-cola no banco do passageiro de um carro e sai por uma cidade barbarizando? Pois é, a direção é dele. Aos filmes dele não faltam cenas de violência beirando a gratuita, submundo e que-tais.
Pois é. Sherlock Holmes, o filme, tem tudo isso. Nada de xadrez Burberry e a elegância clínica dos filmes e séries antigos, a submissão quase cômica do Dr. Watson, gordinho e vários metros mais baixo que Sherlock. O Watson de Ritchie é ninguém menos que Jude Law, que quase não tem tempo de mudar de expressão, tamanha a velocidade das sequências. Robert Downey, vários metros mais baixo que Law, nem tenta: a cara é a mesma do começo ao fim, me fazendo lembrar aquela impagável personagem de Marília Pêra num humorístico dominical dos 80: quando o diretor questionou o fato dela não fazer a expressão que ele pedia, veio a explicação - o que mudava era o pé. Pois é: do pescoço pra baixo, Downey é uma expressão só.
Sherlock Holmes, é claro, tem tudo pra ser uma franquia do tipo Indiana Jones. Isso eu já pensava ontem. Hoje, pesquisando sobre Ritchie, descobri que há um segundo Sherlock sem título sendo produzido, com direção de Ritchie. A fórmula é a mesma das aventuras do arqueólogo: filme de época com ritmo vertiginoso, explosões e lutas coreografadas ad exaustam, num roteiro que beira o fantástico, com magia e bruxaria aliados aos efeitos visuais de tirar o fôlego. Ponto e vírgula.
Créditos finais: surpresa! Ritchie só dirigiu o longa! Não deu pitaco em produção, em roteiro, em nada! Por isso o filme me pareceu tão diferente do que ele costuma fazer - quer dizer, as coisas que ele costuma fazer estão lá, só que com uma sofisticação visual que só muuuuuuuito dinheiro consegue produzir... Ou seja, o enfant terrible, ao que parece, se rendeu a Hollywood!
E já estou roendo as unhas pelo próximo.
Confesso que desconfiei bastante quando soube que Sherlock Holmes estava sendo rodado sob direção de Guy Ritchie. Conhecido por seus filmes independentes, de baixo orçamento e histórias pra lá de bizarras, Ritchie é o que se pode chamar de enfant terrible. Lembra do clipe da Madonna em que ela coloca uma velhinha tomando coca-cola no banco do passageiro de um carro e sai por uma cidade barbarizando? Pois é, a direção é dele. Aos filmes dele não faltam cenas de violência beirando a gratuita, submundo e que-tais.
Pois é. Sherlock Holmes, o filme, tem tudo isso. Nada de xadrez Burberry e a elegância clínica dos filmes e séries antigos, a submissão quase cômica do Dr. Watson, gordinho e vários metros mais baixo que Sherlock. O Watson de Ritchie é ninguém menos que Jude Law, que quase não tem tempo de mudar de expressão, tamanha a velocidade das sequências. Robert Downey, vários metros mais baixo que Law, nem tenta: a cara é a mesma do começo ao fim, me fazendo lembrar aquela impagável personagem de Marília Pêra num humorístico dominical dos 80: quando o diretor questionou o fato dela não fazer a expressão que ele pedia, veio a explicação - o que mudava era o pé. Pois é: do pescoço pra baixo, Downey é uma expressão só.
Sherlock Holmes, é claro, tem tudo pra ser uma franquia do tipo Indiana Jones. Isso eu já pensava ontem. Hoje, pesquisando sobre Ritchie, descobri que há um segundo Sherlock sem título sendo produzido, com direção de Ritchie. A fórmula é a mesma das aventuras do arqueólogo: filme de época com ritmo vertiginoso, explosões e lutas coreografadas ad exaustam, num roteiro que beira o fantástico, com magia e bruxaria aliados aos efeitos visuais de tirar o fôlego. Ponto e vírgula.
Créditos finais: surpresa! Ritchie só dirigiu o longa! Não deu pitaco em produção, em roteiro, em nada! Por isso o filme me pareceu tão diferente do que ele costuma fazer - quer dizer, as coisas que ele costuma fazer estão lá, só que com uma sofisticação visual que só muuuuuuuito dinheiro consegue produzir... Ou seja, o enfant terrible, ao que parece, se rendeu a Hollywood!
E já estou roendo as unhas pelo próximo.
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Crítica
domingo, 3 de janeiro de 2010
Desta vez, é otimista!
Até que enfim é 2010. 2009 terminou arrastado, querendo ficar de qualquer jeito. Mas demos um jeito nele, e ele agora é "ano passado".
Tenho muitos projetos pra este ano. Quero continuar publicando livros. Quero participar de festivais. Quero atuar muito, e cada vez melhor.
Quero dinheiro. Claro. A sobrevivência precisa dele. Mas eu o quero de uma maneira mais tranquila, de maneira mais equilibrada e mais frequente, oriunda de algo que eu sei fazer. É claro que vou buscar novos aprendizados, mas eu desejo que minha sobrevivência seja menos angustiante.
Quero mais e melhores amizades.
Quero mais e melhores coisas para fazer, que me dêem prazer.
Quero viajar mais, e sempre poder voltar em segurança para o ninho e para os braços dos meus.
Quero - e vou - viver melhor.
Tenho muitos projetos pra este ano. Quero continuar publicando livros. Quero participar de festivais. Quero atuar muito, e cada vez melhor.
Quero dinheiro. Claro. A sobrevivência precisa dele. Mas eu o quero de uma maneira mais tranquila, de maneira mais equilibrada e mais frequente, oriunda de algo que eu sei fazer. É claro que vou buscar novos aprendizados, mas eu desejo que minha sobrevivência seja menos angustiante.
Quero mais e melhores amizades.
Quero mais e melhores coisas para fazer, que me dêem prazer.
Quero viajar mais, e sempre poder voltar em segurança para o ninho e para os braços dos meus.
Quero - e vou - viver melhor.
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Otimismos
domingo, 20 de dezembro de 2009
É NATALLLL!!!
Esta é minha mensagem de fim de ano. Fuck off para quase todos os padrões!! Quase todos, porque, afinal de contas, alguma coisa tem de lembrar a época, né?
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Fotos
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
2009 - retrospectiva
1 - O ano começou com festa, claro, de Réveillon, na casa de Beth Leivas. Uma delícia, como sempre.
2 - Filmes:
Crepúsculo. Muuuuuuuuuito melhor que o livro - que me perdoem os fãs de Mrs. Meyer.
Alguém que me Ame de Verdade. Feliz encontro de duas culturas que se mostram muito semelhantes em sua ortodoxia. Faz a gente pensar nas nossas escolhas.
O Curioso Caso de Benjamin Button. Interessante, mas vale mais pelos efeitos e por Cate Blanchett.
O Leitor. Performance impressionante de Kate Winslet, que lhe valeu o Oscar desse ano.
Dúvida. Meryl Streep, soberba, como quase sempre. Phillip Seymour Hoffman se firmando como bom ator, depois do Oscar.
Quem quer Ser um Milionário? Bollywood encontra Hollywood. Resultado? Oscar!
Gran Torino. Clint Eastwood se despedindo do cinema em grandíssimo estilo.
Simplesmente Feliz. Sempre vou gostar de Mike Leigh.
Divã. Filme simplesmente delicioso! Assisti duas vezes, veria mais umas vinte! Consolidei minha admiração por Lília Cabral.
De Repente, Califórnia. Filme gostosinho, quase memória-de-melão não fosse a beleza dos atores e da descoberta de Matt Alber na trilha sonora.
Caramelo. Filme palestino (!). Bom para saber que lá as pessoas são comuns também.
A Partida. Maravilhoso filme japonês sobre a morte e a dignidade do trabalho.
Há muito Tempo que te Amo. Filme francês. Conflitos franceses. Temática universal.
Valsa com Bashir. Animação sobre conflitos em Israel. Soporífero.
À Deriva. Brasileiro mostrando que sabe fazer filme sem precisar de grandes orçamentos. Fotografia belíssima. Mesmo diretor da bosta que é O Cheiro do Ralo. Contradição.
Estamira (DVD). Uma porrada na boca do estômago, mas um documentário belíssimo sobre a sociedade pós-consumo.
Paris. Filme francês (óbvio?) muito bom de ver: a cidade luz desglamourizada. Ótimo.
Gesto Obsceno. Filme israelense que é o retrato do que eu gostaria de fazer com quem abusa do poder.
Harry Potter VI. Alterações absurdas do que está no livro. Sei não, achei muito esquisito. Mas é um Harry Potter...
Um conto de Natal. Catherine Deneuve como a matriarca de uma família em conflito. Bonzinho.
A Festa da Menina Morta. Esperava mais, muito mais daquele filme.
O Visitante. Encontro de duas culturas envolvidas com imigração ilegal. Comovente.
3 - Teatro:
Olá, Pessoa. Monólogo gay para seis corajosos na platéia. Texto razoável, tornado sublime pela interpretação de Alexandre Cioletti.
Zoológico de Vidro. Cássia Kiss impressionante em um texto impresionante. Morri de inveja, queria fazer parte daquele elenco.
O Lustre. Não é porque me afeiçoei a Anna Campos e Enedson Gomes, mas é um espetáculo bem gostoso de assitir.
Till. A atriz Inês Peixoto se firma como a melhor atriz de minha geração.
As Monas Lisas. Uma bosta de texto, atores no extremo da caricatura. Perda de tempo.
Calendário de Pedra. Monólogo de Denise Stoklos. Sensações contraditórias de beleza e espanto, de desconfiança e admiração.
O Auto da Compadecida. Espetáculo delicioso, de texto já conhecido e direção de Alexandre Toledo.
Camila Baker. Boa comédia de Kalluh Araújo. Eu diminuiria uns 15 ou 20 minutos para ficar mais redondinho.
Tudo o que você Gostaria de Saber sobre Sexo, está na Hora de Perguntar. Renato Millani impagável como a vovó que fala de sexo.
04 - Música:
Orquestra Filarmônica de MG. Fiz assinatura. De 16 concertos, assisti 12. Maravilha é termo modesto para descrever o que testemunhei.
Tony Bennet. O deus da voz americana, em franco declínio, arrebanhando uns dólares dos latino-americanos.
05 - Atuação:
Perigo, Mineiros em Férias. Duas temporadas, uma na e uma para a Campanha de Popularizaçãodo Teatro e da Dança. Ao final da segunda, fui "demitido". Não achei ruim.
A Revolta dos Brinquedos. Temporadas na e para a Campanha, mais algumas viagens pelo interior. Adoro fazer.
Poema do Concreto Armado. Espetáculo que surgiu na minha vida como uma grande oportunidade de experimentar. Estreamos em novembro, após muitos laboratórios e ensaios. O resultado tem sido bom.
Rowena Xalamander. Minha alter-ego clown se apresentou apenas uma vez, no aniversário do Marco Antônio, em setembro. Gravei um CD que não foi lido pelo aparelho de som do Helder, tive que improvisar.
06 - Oficinas:
Feminilização. Ofereci para os atores de Camila Baker. Acho bacana que reconheçam algo que sei fazer.
O Ator Jogador. Dentro do ECUM, Encontro Mundial de Artes Cênicas. Foi bom...
Bonsai. Comecei a aprender o que é e como fazer um. Foram 4 aulas semanais. Estou agora tentando desenvolver dois, um pessegueiro e um ipê. É a arte da paciência.
UFMG. Fiz uma disciplina isolada, muito chata, infelizmente transferida para a PUC. Abandonei quando soube do resultado da segunda etapa da prova de mestrado.
Comprei DVD's para aprender ou conhecer melhor o francês, o italiano e o alemão. Não tive disciplina suficiente.
07 - Emprego:
Fui demitido da empresa em que trabalhava havia 2 anos. Juntei um bom FGTS. Sobrevivi de seguro desemprego todo o primeiro semestre. No segundo semestre, fiz dois trabalhos avulsos para a ex-empresa. Estranho, né? Espalhei currículos o ano inteiro, me inscrevi num site de empregos, sem resultado. O único que resolveu me aceitar, uma gráfica, fez comigo um teste, mas não deu certo. Estou desatualizadíssimo.
Tentei cinema, fazendo um teste para o filme Uma Professora Muito Maluquinha. Não deu certo.
08 - Livros:
muuuuuuuuuuuuuuuuuuitos.
09 - Terapia:
Foram doze sessões, sempre muito proveitosas.
10 - Sexo:
Foram, em média, três sessões por semana, entre com e sem parceiro, o que dá mais ou menos cem camisinhas.
11 - Projetos:
Tentei mestrado na UFMG. Gastei uma fábula em livros caros para a prova. Tirei 100 na prova de língua estrangeira, mas fracassei na segunda etapa.
Publiquei meu livro, Os Moinhos, e estou em campanha para vender toda a edição. Ainda. Mandei exemplares para a Cia. das Letras, Rocco, Autêntica, e nenhuma resposta. Fiz um lançamento muito gostoso no Usina, um belíssimo domingo de manhã.
Estou escrevendo o segundo, Os Dias de Grigory, com vistas à publicação em 2010.
Tentei uma bolsa pela Funarte para Criação Literária. Não consegui.
Comecei um blog chamado GM4PW, ou Gay Movement for the Peace in the World. Ainda estou escrevenso seu corolário.
Queria ter montado Tour de Force, dois monólogos de meia hora, mas não consegui diretor.
Fotos trabalhadas no Photoshop. Ainda não mostrei nenhuma.
Fiz inscrição para o I Comunica-MG, mas não compareci.
12 - Dinheiro:
Comprei muitos livros, roupas, DVD's e CD's. Assinei internet e jornal. Banquei a publicação do livro. Não soube administrar.
13 - Assisti 227 vezes Priscilla, a Rainha do Deserto. É uma fuga, eu sei, mas eu gosto daquele clima escapista. Continuo assistindo sempre que quero fugir.
14 - Saúde:
Fiz convênio com a Santa Casa. Já fiz consultas acerca de minha lombar, de um acidente que tive no olho esquerdo, da minha pele. Tem me valido.
Faço academia três ou quatro vezes por semana. Emagreci sete quilos, criei tanquinho.
Durmo de oito a nove horas por noite.
Fiz dois testes de aids, cada um para um projeto de pesquisa diferente.
15 - Beleza:
Desisti, por enquanto, de ter cabelo. Estou de cabeça raspada. Evito tomar sol pra não manchar mais ainda a pele.
Comprei um sabonete esfoliante da Natura para fazer barba. Ótimo.
16 - Festas:
Quase sempre em casa de amigos. É onde me divirto: jogando conversa fora. Uma delícia. Fui uma vez ao Paco Pigalle. É bom enquanto tem espaço pra dançar. Fui ao baile de formatura do sobrinho Evandro no Mix Garden. Festão.
Baile dos Artistas. Sempre uma delícia.
17 - Viagens:
São Paulo. Feriado de Corpus Christi. Exposição do amigo Leo Brizola. Parada Gay. Dia dos Namorados. Frio. Delícia.
A Trabalho. Com teatro, pelos interiores de Minas.
Itabirito. Um chalé escondido entre as pedras vermelhas. Calor e frio ao longo do ano.
Tiradentes. Carnaval. Uma cidade linda, uma casa acolhedora.
18 - Fui feliz, infeliz, alegre, triste, otimista, pessimista, bravo, calmo. Criei poesia, vivi poesia. Vivi. Confesso.
2 - Filmes:
Crepúsculo. Muuuuuuuuuito melhor que o livro - que me perdoem os fãs de Mrs. Meyer.
Alguém que me Ame de Verdade. Feliz encontro de duas culturas que se mostram muito semelhantes em sua ortodoxia. Faz a gente pensar nas nossas escolhas.
O Curioso Caso de Benjamin Button. Interessante, mas vale mais pelos efeitos e por Cate Blanchett.
O Leitor. Performance impressionante de Kate Winslet, que lhe valeu o Oscar desse ano.
Dúvida. Meryl Streep, soberba, como quase sempre. Phillip Seymour Hoffman se firmando como bom ator, depois do Oscar.
Quem quer Ser um Milionário? Bollywood encontra Hollywood. Resultado? Oscar!
Gran Torino. Clint Eastwood se despedindo do cinema em grandíssimo estilo.
Simplesmente Feliz. Sempre vou gostar de Mike Leigh.
Divã. Filme simplesmente delicioso! Assisti duas vezes, veria mais umas vinte! Consolidei minha admiração por Lília Cabral.
De Repente, Califórnia. Filme gostosinho, quase memória-de-melão não fosse a beleza dos atores e da descoberta de Matt Alber na trilha sonora.
Caramelo. Filme palestino (!). Bom para saber que lá as pessoas são comuns também.
A Partida. Maravilhoso filme japonês sobre a morte e a dignidade do trabalho.
Há muito Tempo que te Amo. Filme francês. Conflitos franceses. Temática universal.
Valsa com Bashir. Animação sobre conflitos em Israel. Soporífero.
À Deriva. Brasileiro mostrando que sabe fazer filme sem precisar de grandes orçamentos. Fotografia belíssima. Mesmo diretor da bosta que é O Cheiro do Ralo. Contradição.
Estamira (DVD). Uma porrada na boca do estômago, mas um documentário belíssimo sobre a sociedade pós-consumo.
Paris. Filme francês (óbvio?) muito bom de ver: a cidade luz desglamourizada. Ótimo.
Gesto Obsceno. Filme israelense que é o retrato do que eu gostaria de fazer com quem abusa do poder.
Harry Potter VI. Alterações absurdas do que está no livro. Sei não, achei muito esquisito. Mas é um Harry Potter...
Um conto de Natal. Catherine Deneuve como a matriarca de uma família em conflito. Bonzinho.
A Festa da Menina Morta. Esperava mais, muito mais daquele filme.
O Visitante. Encontro de duas culturas envolvidas com imigração ilegal. Comovente.
3 - Teatro:
Olá, Pessoa. Monólogo gay para seis corajosos na platéia. Texto razoável, tornado sublime pela interpretação de Alexandre Cioletti.
Zoológico de Vidro. Cássia Kiss impressionante em um texto impresionante. Morri de inveja, queria fazer parte daquele elenco.
O Lustre. Não é porque me afeiçoei a Anna Campos e Enedson Gomes, mas é um espetáculo bem gostoso de assitir.
Till. A atriz Inês Peixoto se firma como a melhor atriz de minha geração.
As Monas Lisas. Uma bosta de texto, atores no extremo da caricatura. Perda de tempo.
Calendário de Pedra. Monólogo de Denise Stoklos. Sensações contraditórias de beleza e espanto, de desconfiança e admiração.
O Auto da Compadecida. Espetáculo delicioso, de texto já conhecido e direção de Alexandre Toledo.
Camila Baker. Boa comédia de Kalluh Araújo. Eu diminuiria uns 15 ou 20 minutos para ficar mais redondinho.
Tudo o que você Gostaria de Saber sobre Sexo, está na Hora de Perguntar. Renato Millani impagável como a vovó que fala de sexo.
04 - Música:
Orquestra Filarmônica de MG. Fiz assinatura. De 16 concertos, assisti 12. Maravilha é termo modesto para descrever o que testemunhei.
Tony Bennet. O deus da voz americana, em franco declínio, arrebanhando uns dólares dos latino-americanos.
05 - Atuação:
Perigo, Mineiros em Férias. Duas temporadas, uma na e uma para a Campanha de Popularizaçãodo Teatro e da Dança. Ao final da segunda, fui "demitido". Não achei ruim.
A Revolta dos Brinquedos. Temporadas na e para a Campanha, mais algumas viagens pelo interior. Adoro fazer.
Poema do Concreto Armado. Espetáculo que surgiu na minha vida como uma grande oportunidade de experimentar. Estreamos em novembro, após muitos laboratórios e ensaios. O resultado tem sido bom.
Rowena Xalamander. Minha alter-ego clown se apresentou apenas uma vez, no aniversário do Marco Antônio, em setembro. Gravei um CD que não foi lido pelo aparelho de som do Helder, tive que improvisar.
06 - Oficinas:
Feminilização. Ofereci para os atores de Camila Baker. Acho bacana que reconheçam algo que sei fazer.
O Ator Jogador. Dentro do ECUM, Encontro Mundial de Artes Cênicas. Foi bom...
Bonsai. Comecei a aprender o que é e como fazer um. Foram 4 aulas semanais. Estou agora tentando desenvolver dois, um pessegueiro e um ipê. É a arte da paciência.
UFMG. Fiz uma disciplina isolada, muito chata, infelizmente transferida para a PUC. Abandonei quando soube do resultado da segunda etapa da prova de mestrado.
Comprei DVD's para aprender ou conhecer melhor o francês, o italiano e o alemão. Não tive disciplina suficiente.
07 - Emprego:
Fui demitido da empresa em que trabalhava havia 2 anos. Juntei um bom FGTS. Sobrevivi de seguro desemprego todo o primeiro semestre. No segundo semestre, fiz dois trabalhos avulsos para a ex-empresa. Estranho, né? Espalhei currículos o ano inteiro, me inscrevi num site de empregos, sem resultado. O único que resolveu me aceitar, uma gráfica, fez comigo um teste, mas não deu certo. Estou desatualizadíssimo.
Tentei cinema, fazendo um teste para o filme Uma Professora Muito Maluquinha. Não deu certo.
08 - Livros:
muuuuuuuuuuuuuuuuuuitos.
09 - Terapia:
Foram doze sessões, sempre muito proveitosas.
10 - Sexo:
Foram, em média, três sessões por semana, entre com e sem parceiro, o que dá mais ou menos cem camisinhas.
11 - Projetos:
Tentei mestrado na UFMG. Gastei uma fábula em livros caros para a prova. Tirei 100 na prova de língua estrangeira, mas fracassei na segunda etapa.
Publiquei meu livro, Os Moinhos, e estou em campanha para vender toda a edição. Ainda. Mandei exemplares para a Cia. das Letras, Rocco, Autêntica, e nenhuma resposta. Fiz um lançamento muito gostoso no Usina, um belíssimo domingo de manhã.
Estou escrevendo o segundo, Os Dias de Grigory, com vistas à publicação em 2010.
Tentei uma bolsa pela Funarte para Criação Literária. Não consegui.
Comecei um blog chamado GM4PW, ou Gay Movement for the Peace in the World. Ainda estou escrevenso seu corolário.
Queria ter montado Tour de Force, dois monólogos de meia hora, mas não consegui diretor.
Fotos trabalhadas no Photoshop. Ainda não mostrei nenhuma.
Fiz inscrição para o I Comunica-MG, mas não compareci.
12 - Dinheiro:
Comprei muitos livros, roupas, DVD's e CD's. Assinei internet e jornal. Banquei a publicação do livro. Não soube administrar.
13 - Assisti 227 vezes Priscilla, a Rainha do Deserto. É uma fuga, eu sei, mas eu gosto daquele clima escapista. Continuo assistindo sempre que quero fugir.
14 - Saúde:
Fiz convênio com a Santa Casa. Já fiz consultas acerca de minha lombar, de um acidente que tive no olho esquerdo, da minha pele. Tem me valido.
Faço academia três ou quatro vezes por semana. Emagreci sete quilos, criei tanquinho.
Durmo de oito a nove horas por noite.
Fiz dois testes de aids, cada um para um projeto de pesquisa diferente.
15 - Beleza:
Desisti, por enquanto, de ter cabelo. Estou de cabeça raspada. Evito tomar sol pra não manchar mais ainda a pele.
Comprei um sabonete esfoliante da Natura para fazer barba. Ótimo.
16 - Festas:
Quase sempre em casa de amigos. É onde me divirto: jogando conversa fora. Uma delícia. Fui uma vez ao Paco Pigalle. É bom enquanto tem espaço pra dançar. Fui ao baile de formatura do sobrinho Evandro no Mix Garden. Festão.
Baile dos Artistas. Sempre uma delícia.
17 - Viagens:
São Paulo. Feriado de Corpus Christi. Exposição do amigo Leo Brizola. Parada Gay. Dia dos Namorados. Frio. Delícia.
A Trabalho. Com teatro, pelos interiores de Minas.
Itabirito. Um chalé escondido entre as pedras vermelhas. Calor e frio ao longo do ano.
Tiradentes. Carnaval. Uma cidade linda, uma casa acolhedora.
18 - Fui feliz, infeliz, alegre, triste, otimista, pessimista, bravo, calmo. Criei poesia, vivi poesia. Vivi. Confesso.
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Memória
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
ABSCESSO
Estou sentindo falta de mim, daquele que eu era, inocente, que fugia para debaixo de uma mesa e fingia que tudo estava bem. Queria voltar ao tempo em que a vida era uma tarde de verão com biscoito, requeijão Poços de Caldas e O Guarani. Em verdade, o que estou é triste pela maturidade dolorosa, pelo tempo inexorável, pela decepção com as mentiras, inconfidências, coisas mesquinhas, egoísmos. Pô, que se foda o mundo, eu vim aqui para amar e ser amado, para ser feliz com o que eu escolher fazer, para confiar apenas em mim e no que sou capaz.
Mas sigo me eternizando em volumes absolutos de merda.
Acho que ainda preciso pensar mais em mim, preciso de um pouco mais de mim, eu que sempre e tanto pensei nos outros...
Não gosto de sobressaltos. Não gosto de ter o estômago comprimido, não gosto de ficar trêmulo. Não gosto de sentir ódio, de me decepcionar com as pessoas, me deixa doente.
Estou com uma forte sensação de angústia. Como algo estagnado, prestes a explodir. É como uma nuvem, você sabe que vai chover, mas não sabe onde ou quando. Uma sensação como esta pode significar qualquer coisa. Espero que seja uma mudança para melhor.
Sinto remorso pelo que estou fazendo comigo mesmo. Não estou me permitindo seguir minha intuição.
Estou muito decepcionado com o mundo. As decepções estão se repetindo com uma frequência não desejada. Tenho vontade de sair dessa cidade. Estou me transformando num animal descrente e insensível. Será que era isso que o mundo esperava de mim desde o começo?
Existe alguma coisa que está me chamando, esse um-novo-eu, parece que aquilo que se espera que eu faça vai modificar minha aparência, como uma plástica. O velho-eu é a casca da cigarra que precisa ser descartada. Parece que vou ficar mais alto. Parece que a determinação é uma roupa nova, completamente diferente daquela que costumo usar.
As gotas de chuva, uma vez caídas, não são capazes de voltar imediatamente ao céu. Elas se transformam primeiro, e jamais serão as mesmas novamente.
Mas sigo me eternizando em volumes absolutos de merda.
Acho que ainda preciso pensar mais em mim, preciso de um pouco mais de mim, eu que sempre e tanto pensei nos outros...
Não gosto de sobressaltos. Não gosto de ter o estômago comprimido, não gosto de ficar trêmulo. Não gosto de sentir ódio, de me decepcionar com as pessoas, me deixa doente.
Estou com uma forte sensação de angústia. Como algo estagnado, prestes a explodir. É como uma nuvem, você sabe que vai chover, mas não sabe onde ou quando. Uma sensação como esta pode significar qualquer coisa. Espero que seja uma mudança para melhor.
Sinto remorso pelo que estou fazendo comigo mesmo. Não estou me permitindo seguir minha intuição.
Estou muito decepcionado com o mundo. As decepções estão se repetindo com uma frequência não desejada. Tenho vontade de sair dessa cidade. Estou me transformando num animal descrente e insensível. Será que era isso que o mundo esperava de mim desde o começo?
Existe alguma coisa que está me chamando, esse um-novo-eu, parece que aquilo que se espera que eu faça vai modificar minha aparência, como uma plástica. O velho-eu é a casca da cigarra que precisa ser descartada. Parece que vou ficar mais alto. Parece que a determinação é uma roupa nova, completamente diferente daquela que costumo usar.
As gotas de chuva, uma vez caídas, não são capazes de voltar imediatamente ao céu. Elas se transformam primeiro, e jamais serão as mesmas novamente.
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Pessimismos
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Porque a homofobia não será criminalizada
Porque somos uns idiotas.
Porque não reconhecemos que qualquer ato de violência é uma vergonha.
Porque, como dizia George Orwell, todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.
Porque Deus orientou os Evangélicos, por e-mail, a continuarem a cruzada contra essa pouca vergonha (quer dizer, a pouca vergonha sexual entre homens, porque a orgia que se faz entre os homens no Congresso com o nosso dinheiro ainda é permitida).
Porque nem todos têm direitos iguais.
Porque o mundo é melhor assim: repleto de violência, fome, miséria, superpopulação, escassez de água.
Porque estamos mais preocupados com a bolsa Hermés que a Dilma comprou.
Porque estamos acostumados a ver nossa opinião desrespeitada: no orçamento participativo digital de 2008 em Belo Horizonte, o projeto que ganhou pelo voto da população foi o do Bairro Padre Eustáquio (periferia), mas a obra que será realizada mesmo é o anel viário gigante no Belvedere (classe A). Ou seja, é o trânsito de carrões importados que precisa ser desafogado, e não o de ônibus de periferia.
Porque é mais simples enfiar a cabeça na areia.
Porque os gays já sabem se defender: eles "tiram a gilete", eles "rodam a baiana", eles contam pra esposa do político com quantas mocreias ele já se deitou.
Por último: porque não existe, nunca existiu, nem vai existir amor nesse mundo.
Porque não reconhecemos que qualquer ato de violência é uma vergonha.
Porque, como dizia George Orwell, todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.
Porque Deus orientou os Evangélicos, por e-mail, a continuarem a cruzada contra essa pouca vergonha (quer dizer, a pouca vergonha sexual entre homens, porque a orgia que se faz entre os homens no Congresso com o nosso dinheiro ainda é permitida).
Porque nem todos têm direitos iguais.
Porque o mundo é melhor assim: repleto de violência, fome, miséria, superpopulação, escassez de água.
Porque estamos mais preocupados com a bolsa Hermés que a Dilma comprou.
Porque estamos acostumados a ver nossa opinião desrespeitada: no orçamento participativo digital de 2008 em Belo Horizonte, o projeto que ganhou pelo voto da população foi o do Bairro Padre Eustáquio (periferia), mas a obra que será realizada mesmo é o anel viário gigante no Belvedere (classe A). Ou seja, é o trânsito de carrões importados que precisa ser desafogado, e não o de ônibus de periferia.
Porque é mais simples enfiar a cabeça na areia.
Porque os gays já sabem se defender: eles "tiram a gilete", eles "rodam a baiana", eles contam pra esposa do político com quantas mocreias ele já se deitou.
Por último: porque não existe, nunca existiu, nem vai existir amor nesse mundo.
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Pessimismos
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Papo de academia
É um pé no saco. Frequento porque cuido do corpo como uma forma de saúde. Mas é duro de escutar.
Por uma artimanha do destino, frequento uma academia de classe alta. Entro, sou educado principalmente com quem está trabalhando, troco de roupa, malho, gasto calorias, suo, faço condicionamento aeróbico (o último exame deu "Excelente"), faço sauna, me barbeio, tomo uma ducha, visto a roupa, vou embora. Seria ótimo se fosse só isso.
De vez em quando, escuto sem querer as conversas dos homens de classe alta no vestiário ou na sauna. Mais raso e vazio impossível. Não falam nem do último filme do Bruce Willis, quanto mais do concerto chiquérrimo do Nelson Freire. A única coisa que escuto é "Nunca mais vou pro hemisfério norte entre outubro e março", "Já fui duas vezes à África do Sul este ano", "Quando estive em Nova York mês passado trouxe o laptop mais moderno", "Fui à Suiça trocar o Rolex que não funcionava em altas altitudes", "Miami é o paraíso das compras", "Não fui no seu aniversário no (buffet) Catarina porque estava recepcionando uns franceses em Escarpas (do Lago)".
É duro de escutar. Comento para mim mesmo, resignado: "Ah, os valores..." Mas serão valores mesmo, ou a velha história do macho competitivo que, mesmo longe da fêmea, continua mostrando que é o merecedor da liderança do bando?
Uma academia de ginástica é o templo do hedonismo, ou seja, o local ideal para a competição. A cultura é o último dos quesitos de desempate. Imagino que seja o mesmo no vestiário feminino. Daí a pouca profundidade, o parco conteúdo.
É tão surreal que me permito rir. Será que a classe alta é assim o tempo todo, ou ela só é assim no grande templo? Rio e vou colhendo pequenos fragmentos para um futuro livro. Tudo para mim se transforma em tema literário, hoje em dia.
Por uma artimanha do destino, frequento uma academia de classe alta. Entro, sou educado principalmente com quem está trabalhando, troco de roupa, malho, gasto calorias, suo, faço condicionamento aeróbico (o último exame deu "Excelente"), faço sauna, me barbeio, tomo uma ducha, visto a roupa, vou embora. Seria ótimo se fosse só isso.
De vez em quando, escuto sem querer as conversas dos homens de classe alta no vestiário ou na sauna. Mais raso e vazio impossível. Não falam nem do último filme do Bruce Willis, quanto mais do concerto chiquérrimo do Nelson Freire. A única coisa que escuto é "Nunca mais vou pro hemisfério norte entre outubro e março", "Já fui duas vezes à África do Sul este ano", "Quando estive em Nova York mês passado trouxe o laptop mais moderno", "Fui à Suiça trocar o Rolex que não funcionava em altas altitudes", "Miami é o paraíso das compras", "Não fui no seu aniversário no (buffet) Catarina porque estava recepcionando uns franceses em Escarpas (do Lago)".
É duro de escutar. Comento para mim mesmo, resignado: "Ah, os valores..." Mas serão valores mesmo, ou a velha história do macho competitivo que, mesmo longe da fêmea, continua mostrando que é o merecedor da liderança do bando?
Uma academia de ginástica é o templo do hedonismo, ou seja, o local ideal para a competição. A cultura é o último dos quesitos de desempate. Imagino que seja o mesmo no vestiário feminino. Daí a pouca profundidade, o parco conteúdo.
É tão surreal que me permito rir. Será que a classe alta é assim o tempo todo, ou ela só é assim no grande templo? Rio e vou colhendo pequenos fragmentos para um futuro livro. Tudo para mim se transforma em tema literário, hoje em dia.
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Sociedades
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Noite de agonia
Uma coisa levou a outra. Estou puto.
Não queria sair com os amigos. Queria pegar o ônibus (moro longe do centro) e ir rápido para casa, mas a cerveja gelada foi tentadora nesse calor. Devia ter seguido meus instintos.
Batata. Depois de finalmente pagar a conta, amarguei quase meia hora de espera no ponto de ônibus. Veio, afinal, bem vazio. Aliviado, me sentei.
Eu havia me esquecido que um jogo de futebol acabara justamente há pouco. Quando o ônibus se preparava para deixar o Centro, mil adolescentes invadiram o ônibus, quebraram a escotilha e uns seis subiram ao teto para "surfar". A agonia estava só começando.
No primeiro ponto da periferia, uma blitz de uns seis carros esperava o ônibus. Atabalhoadamente, os surfistas desceram do teto e tentaram fingir que eram cidadãos comuns. Tarde demais. O ônibus foi parado e os mil adolescentes foram desembarcados e revistados.
Eu só pensava na minha cama.
Meia hora depois, a "turma" embarcou novamente. Um sentimento podre de impotência conseguiu me dominar. Juntei as sacolas que penosamente carregava e desembarquei. Os guardas tentaram me convencer a seguir viagem, mas disse a um deles, textualmente: "você fez um ótimo trabalho, guarda, mas eu não confio nessa turma por nada desse mundo". Peguei um táxi que, por milagre, acabara de desembarcar pasageiros numa rua transversal.
Em dia de jogo de futebol em Belo Horizonte, vou me entocaiar em casa ou, se não conseguir evitar, por nada, por nada mesmo, vou ficar até tarde na rua ou, se a tentação for realmente grande, devo me prevenir com grana para táxi.
O que me enche de raiva é que esses meninos serão os trabalhadores do futuro. Com essa formação, duvido que tenhamos futuro.
Não queria sair com os amigos. Queria pegar o ônibus (moro longe do centro) e ir rápido para casa, mas a cerveja gelada foi tentadora nesse calor. Devia ter seguido meus instintos.
Batata. Depois de finalmente pagar a conta, amarguei quase meia hora de espera no ponto de ônibus. Veio, afinal, bem vazio. Aliviado, me sentei.
Eu havia me esquecido que um jogo de futebol acabara justamente há pouco. Quando o ônibus se preparava para deixar o Centro, mil adolescentes invadiram o ônibus, quebraram a escotilha e uns seis subiram ao teto para "surfar". A agonia estava só começando.
No primeiro ponto da periferia, uma blitz de uns seis carros esperava o ônibus. Atabalhoadamente, os surfistas desceram do teto e tentaram fingir que eram cidadãos comuns. Tarde demais. O ônibus foi parado e os mil adolescentes foram desembarcados e revistados.
Eu só pensava na minha cama.
Meia hora depois, a "turma" embarcou novamente. Um sentimento podre de impotência conseguiu me dominar. Juntei as sacolas que penosamente carregava e desembarquei. Os guardas tentaram me convencer a seguir viagem, mas disse a um deles, textualmente: "você fez um ótimo trabalho, guarda, mas eu não confio nessa turma por nada desse mundo". Peguei um táxi que, por milagre, acabara de desembarcar pasageiros numa rua transversal.
Em dia de jogo de futebol em Belo Horizonte, vou me entocaiar em casa ou, se não conseguir evitar, por nada, por nada mesmo, vou ficar até tarde na rua ou, se a tentação for realmente grande, devo me prevenir com grana para táxi.
O que me enche de raiva é que esses meninos serão os trabalhadores do futuro. Com essa formação, duvido que tenhamos futuro.
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Pessimismos
Babagamush e Camila Baker
Quatro amigos e um convidado talentosíssimo se divertindo. Só posso começar assim este post. Eu quase que só dava gargalhada por saber que são amigos meus fazendo o que nunca fizeram, pelo menos em público. Digo se divertindo porque muitas das piadas são chistes entre eles, piadas particulares que pouca gente entendia como piada e ria.
Kalluh Araújo deixa mais uma vez sua marca. As gags de repetição e aproveitamento de equívocos dos ensaios vêm desde que trabalhei com ele em Tartufo, há alguns anos. É divertidíssimo, e precisa de bons atores para bem executá-las, mas repeti-las mais vezes do que permite o limite do risível corre o risco de cansar, dar "barriga" no espetáculo, e acho que a única barriga que Camila Baker merece é a do Fernando Veríssimo, impagável como nordestina e com o bordão "pelo menos meu bucho tá cheio".
A melhor cena do espetáculo, pra mim, é a da memória de infância da personagem-título. Pro resto do espetáculo, o que eu acho que faltou foi justamente estender para as outras a energia deliciosa desta cena. Se a intenção é o "falso canastrão" novelesco, farsesco, acho a técnica ótima, mas acho que uma dosagem sempre alta cansa . Achei o figurino muito bacana, no limite do brega, colorido e acetinado. Achei a trilha sonora bem bacana, também.
Eu reduziria 20minutos do espetáculo, acho que ficaria redondinho e bem mais gostoso de assistir.
Kalluh Araújo deixa mais uma vez sua marca. As gags de repetição e aproveitamento de equívocos dos ensaios vêm desde que trabalhei com ele em Tartufo, há alguns anos. É divertidíssimo, e precisa de bons atores para bem executá-las, mas repeti-las mais vezes do que permite o limite do risível corre o risco de cansar, dar "barriga" no espetáculo, e acho que a única barriga que Camila Baker merece é a do Fernando Veríssimo, impagável como nordestina e com o bordão "pelo menos meu bucho tá cheio".
A melhor cena do espetáculo, pra mim, é a da memória de infância da personagem-título. Pro resto do espetáculo, o que eu acho que faltou foi justamente estender para as outras a energia deliciosa desta cena. Se a intenção é o "falso canastrão" novelesco, farsesco, acho a técnica ótima, mas acho que uma dosagem sempre alta cansa . Achei o figurino muito bacana, no limite do brega, colorido e acetinado. Achei a trilha sonora bem bacana, também.
Eu reduziria 20minutos do espetáculo, acho que ficaria redondinho e bem mais gostoso de assistir.
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Crítica
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Frustrações
Minha terapeuta me falou para não ficar sufocando minhas frustrações. Reconhecê-las e permitir que elas sigam seu curso. Assim, é mais fácil se livrar delas.
Preceitos budistas já diziam isso. Tanto a felicidade quanto o sofrimento têm duração curta. O que dá a eles a sensação de que se prolongam é o valor que damos a eles.
Então, imaginem o tanto de palavrões com os quais gostaria de exorcizar minhas frustrações mais recentes. Só imaginem, e me imaginem também berrando, dando socos na parede, essas coisas que gente louca faz e que, só agora, compreendo. Elas não são loucas, loucos somos nós, que implodimos nossa loucura ao invés de a explodirmos.
Todo mundo tem suas frustrações, todos os dias. Um zíper que não fecha, por exemplo. Um livro que não acaba como gostaríamos.
Vivo recebendo e-mails dizendo para viver cada segundo de cada vez, mas é difícil. A gente está acostumado a viver o agora pensando no daqui a pouco, e quando o daqui a pouco chega nos frustramos pois não aproveitamos o agora no devido tempo.
Outra coisa. Estou precisando ser mais cruel. Sou muito bonzinho, desde criança. Aprendi com meus pais a ser mais tolerante com as coisas, mas acho que agora posso construir minhas próprias convicções. E uma delas é que estou sendo bonzinho demais. Obediente demais (antigamente se falava "Bem-mandado"). Frustrado demais. Chega.
Preceitos budistas já diziam isso. Tanto a felicidade quanto o sofrimento têm duração curta. O que dá a eles a sensação de que se prolongam é o valor que damos a eles.
Então, imaginem o tanto de palavrões com os quais gostaria de exorcizar minhas frustrações mais recentes. Só imaginem, e me imaginem também berrando, dando socos na parede, essas coisas que gente louca faz e que, só agora, compreendo. Elas não são loucas, loucos somos nós, que implodimos nossa loucura ao invés de a explodirmos.
Todo mundo tem suas frustrações, todos os dias. Um zíper que não fecha, por exemplo. Um livro que não acaba como gostaríamos.
Vivo recebendo e-mails dizendo para viver cada segundo de cada vez, mas é difícil. A gente está acostumado a viver o agora pensando no daqui a pouco, e quando o daqui a pouco chega nos frustramos pois não aproveitamos o agora no devido tempo.
Outra coisa. Estou precisando ser mais cruel. Sou muito bonzinho, desde criança. Aprendi com meus pais a ser mais tolerante com as coisas, mas acho que agora posso construir minhas próprias convicções. E uma delas é que estou sendo bonzinho demais. Obediente demais (antigamente se falava "Bem-mandado"). Frustrado demais. Chega.
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